AVISO: É PIEGAS!

Nisso de buscar em velhos diários... (rs) Bem, aqui está uma carta apaixonada, intensa, com uma profundidade abissal, de muitas luas atrás. Eu a reencontrei quase que por acaso, e como diz um amigo, há casos que sim e há casos que não. Esse foi um caso que não, mas que foi muito estimulante e permitiu a vivência de diversos e difusos sentimentos. Grandes, intensos, bonitos. Shakesperianos...mas regados a letras de Jorge Vercillo.

"Não é que eu não queira viver sem você. Apenas eu não quero tentar. Todas as noites eu sonho com você. Desde o dia em que você surgiu do nada..."


Olá, minha vida!Espero que você esteja bem. Quando desliguei o telefone,no domingo,senti um vazio enorme.E esse vazio cresceu quando minha caixa de mensagens estava vazia,ontem...


Mas eu tive um vislumbre de dúvida quando ouvi uma coisa que me trouxe certa expectativa - parece que o destino não se cansa de me pregar peças quando menos espero!Eu sinto tanta saudade de você, o que eu vou fazer, hein? Você surgiu de repente, me trouxe fé. E agora, desaparece e me faz desacreditar de tudo outra vez. Quer me deixar louca ou me causar um enfarto?


"Me faz sonhar com outra vida que eu nunca quis levar.Você me dá asas pra voar!"


E eu perdi o medo de alturas. Quero voar mais alto ainda, sem rumo, ao encontro de alguma coisa que eu nem sei direito o que é e que, por isso mesmo, é muito interessante!


"Nós já temos encontro marcado, eu só não sei quando. Se daqui a dois dias, se daqui a mil anos... Com dois canos pra mim apontados, ousaria te olhar, ousaria te ver..."

Por que eu sou tão teimosa, é um mistério... mas eu não desisto facilmente.E tenho uma tendência a contrariar as regras.


"Quem disse que a gente precisa perder um ao outro pra se encontrar?"


Puxa,Renato! Às vezes parece que você é mesmo o meu príncipe, aquela lenda que você jurou me fazer acreditar, lembra? E você é tão sensível, tão doce e natural, você me inspira. Sua espontaneidade, sua doçura me encantaram!Só que você já tem a sua vida programada e talvez não queira se desfazer dela.


"Sonhamos paisagens, compramos passagem e nunca voamos pra lá..."


Eu sinto que não tenho o direito de influenciar você nas suas decisões. Mas confesso que morro de vontade de surgir na sua frente e dizer: ‘Cheguei, e aí?’. Eu ainda posso te ver, estar com você por pelo menos um dia, um único e simples dia porque eu tenho coisas a fazer e estou disposta a isso,mas nunca quis até você chegar.Mas só se você quiser também,sem nenhuma responsabilidade ou obrigação.

"O amor se fez, me levando além, onde ninguém mais criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais... o amor surgiu, como um em mil, por você eu vim. E assim será a me conduzir, sem mandar em mim; como o vento e o barco a vela que nos leva sem fim..."


Pra ser sincera, eu prefiro um dia em que coisa alguma importe além de nós dois, um dia em que a gente possa conversar muito, rir muito juntos e comer batata-frita. Prefiro estar com você uma vez, tocar sua mão uma única vez... do que a eternidade sem isso.


"Sem querer, te perdi tentando te encontrar. Por te amar demais sofri, amor, me senti traído e traidor. (...) A paixão veio assim,afluente,sem fim,rio que não deságua (...)
Esse amor hoje vai pra nunca mais voltar, como faz o velho pescador quando sabe que é a vez do mar. Qual de nós foi buscar o que já viu partir? Quis gritar, mas segurou a voz; quis chorar, mas conseguiu sorrir..."


Eu realmente não gostaria de esperar outra vida pra nos conhecermos. Olha, eu sei que só tenho uma coisa a fazer: pescar em outro riacho.Mas por que procurar,se você já achou o que quer? E o que fazer quando o que você quer não está ao seu alcance?


"Preciso aprender a ver o que não se vê, para me transformar no que o amor quiser. Ouvir o que não se diz, com os olhos te entender pra te fazer feliz... como me faz você!"


A vida vai continuar, com ou sem você. Só que sem você ela vai ficar muito sem graça.

"Eu quero ver o invisível, prever o que está no ar; como previ meu futuro ao te ver passar..."


Você apareceu de um modo muito louco. Mas eu não acredito no acaso. Estava escrito nas estrelas, nas nuvens, nos astros, nos seus olhos brilhantes...


"Quando o inverno chega no verão;quando não há nada que pareça eterno..."


‘O seu coração está onde está o seu tesouro. E o seu tesouro precisa ser encontrado para que tudo possa fazer sentido’. Você é um tesouro que eu custei a encontrar. Será que eu vou ter que devolver toda essa riqueza?


"Escute seu coração antes de dizer adeus. Nem tudo é o que parece. Há vozes que querem ser ouvidas. Mas você não pode dizer as palavras. Mas escute seu coração..."

Eu nunca acreditei nos sonhos, eles nunca me levaram muito longe. Nunca acreditei em fadas, nem que sapatinhos dourados pudessem encontrar o pezinho perfeito. Nunca acreditei em mágica ou que desejos pudessem tornar-se realidade... não até o dia em que você me encontrou.Quando você chegou,me deu um novo ponto de vista.Eu fui tocada por um anjo.Isso é impossível,mas é verdade.Por sua causa eu acredito que existe um pote de ouro no final de cada arco-íris.E se você acredita em destino,então você é o meu destino...


"O tempo faz tudo valer a pena e nem o erro é desperdício..."


Ainda acho que é melhor chorar por ter feito a coisa errada do que chorar na vontade de ter feito. Não sei se o que estou fazendo é a coisa mais adequada, mais sensata ou mais prática. Mas é o que eu sinto vontade de fazer agora. Aliás, é apenas parte de tudo o que eu gostaria de fazer...
Se estou errada, então me corrija. Me faça calar quando ficar claro que estou dizendo bobagens.E me mostre o melhor caminho,um que seja melhor do que você.Existe?

O que há

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —


Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

(Álvaro de Campos)

Trechos do mais incomparavelmente inspirado JUCA MULATO, do Del Picchia. Em que minha alma se deleita.

"Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida...
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar é sofrer; amar é sofrer mais"!
(...)

E, despertando à Vida esse caboclo rude,
alma cheia de abrolhos,
notou, na imensa dor de quem se desilude
que, desse olhar que amou, fugitivo e sereno,
só lhe restara no lábio um travo de veneno,
uma chaga no peito e lágrimas nos olhos!
(...)

Juca Mulato sofre. Em cismas se aquebranta.
Uma viola geme, uma voz triste canta:


"Antes de amar eu dizia:
para cortar na raiz
esta constante agonia
preciso amar algum dia,
amando serei feliz.

Amei... desventura minha!
Quis curar-me e piorei.
O amor só mágoas continha
e aos tormentos que já tinha,
novos tormentos juntei".
(...)

Mas de onde vem o mal que tanto te abateu?

- Ele vem de um olhar que nunca será meu...


Como está para o sol a luz morta da estrela
a luz do próprio sol está para o olhar dela...

Parece o seu fulgor quando o fito direito,
uma faca que alguém enterra no meu peito,
veneno que se bebe em rútilos cristais
e, sabendo que mata, eu quero beber mais...
(...)

- Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!
Não há cura, ai de ti, para o amor impossível.
Arranco a lepra do corpo, estirpo da alma o tédio,
só para o mal de amor nunca encontrei remédio...
Como queres possuir o límpido olhar dela ?
Tu és qual um sapo a querer uma estrela...

A peçonha da cobra eu curo... Quem souber
cure o veneno que há no olhar de uma mulher!



DANÇA

A menina dança sozinha
por um momento.

A menina dança sozinha
com o vento, com o ar, com
o sonho de olhos imensos...

A forma grácil de suas pernas
ele é que as plasma, o seu par
de ar,
de vento,
o seu par fantasma...

Menina de olhos imensos,
tu, agora, paras,
mas a mão ainda erguida
segura ainda no ar
o hástil invisível
deste poema!
 
(Mário Quintana)

PERFÍDIA

Há muitas rosas pelo meu caminho.
Há rosas rubras como bocas
incontentadas, rosas loucas
que reclamam carinho,
que parecem possuídas
de uma ânsia insatisfeita de beijar.

Há rosas tristes, rosas místicas,
brancas da cor das hóstias, rosas eucarísticas,
somente dignas de um altar.

Há rosas amarelas, cor de tédio,
e roxas, cor da angústia sem remédio
cor da saudade vã de quem espera
uma alegria que não vem...

(...)

Há muitas rosas pelo meu caminho,
que é como todos os caminhos
povoado de esperanças, de desejos vãos.
Sim, muitas rosas!
Todas elas, porém, guardam espinhos
para ferir as minhas mãos.

 (Perylo  Doliveira)


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom.
Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração: lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe.Paraíso se mudou para lá
Por cimas das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos. Filhos fortes
Sonhos semeando um mundo real
Toda gente cabe lá: Palestina, Shangrilá...

Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa


Lá o tempo espera. Lá é Primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas para a sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos
E esta canção
Tem um verdadeiro amor para quando você for.


(Marisa Monte,Pedro Baby,Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes)
A BORBOLETA TRAVESSA
VIVE DE SOL E DE FLORES...
- EU QUERO O SOL DE TEUS OLHOS,
O NÉCTAR DOS TEUS AMORES!

BORBOLETA

Borboleta dos amores,
Como a outra sobre as flores,
Por que és volúvel assim?
Por que deixas, caprichosa,
Por que deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?

Pois essa alma é tão sedenta
Que um só amor não contenta
E louca quer variar?
Se já tens amores belos,
P'ra que vais dar teus desvelos
Aos goivos da beira-mar?


Não sabes que a flor traída
Na débil haste pendida
Em breve murcha será?
Que de ciúmes fenece
E nunca mais estremece
Aos beijos que a brisa dá?...


Borboleta dos amores,
Como a outra sobre as flores,
Por que és volúvel assim?
Por que deixas, caprichosa,
Por que deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?!


Tu vês a flor da campina,
E bela e terna e divina,
Tu dás-lhe o que essa alma tem;
Depois, passado o delírio,
Esqueces o pobre lírio
Em troca duma cecém!


Mas tu não sabes, louquinha,
Que a flor que pobre definha
Merece mais compaixão?
Que a desgraçada precisa,
Como do sopro da brisa,
Os ais do teu coração?


Borboleta dos amores,
Como a outra sobre as flores,
Por que és volúvel assim?
Por que deixas, caprichosa,
Por que deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?


Se a borboleta dourada
Esquece a rosa encarnada
Em troca duma outra flor;
Ela - a triste, molemente
Pendida sobre a corrente,
Falece à míngua d'amor.


Tu também minha inconstante
Tens tido mais dum amante
E nunca amaste a um só!
Eles morrem de saudade,
Mas tu na variedade
Vais vivendo e não tens dó!


Ai! és muito caprichosa!
Sem pena deixas a rosa
E vais beijar outras flores;
Esqueces os que te amam...
Por isso todos te chamam:
- Borboleta dos amores!

Casimiro de Abreu in Primaveras-1958

Olha a Beija-Flor aí, geeente! Alôôô, Nilópolis!!!


Não podia deixar de parabenizar a escola que eu amo tanto e pela qual tanto torci. Temos uma energia diferente, não há como negar. Eu sabia desde o momento em que pisou na avenida, que o título era da princesa nilopolitana! Espero poder cair no samba na marquês próximo ano, e ver de perto a conquista de mais um título!


Justo quando a lagarta pensou que o mundo tinha acabado,ela virou uma linda borboleta...
(Lamartine)



Leio e Recomendo: ELE AINDA REMOVE PEDRAS - Max Lucado

Por que a Bíblia contém tantas histórias de pessoas problemáticas? Por que lemos um relato após o outro de Jesus se encontrando com pessoas necessitadas? Um ladrão na cruz.Um homem solitário no cemitério.Nicodemos rejeitado.Pedro envergonhado.José confuso.Marta desolada.

Embora as situações possam variar,as condições são as mesmas.Elas não têm para onde ir.Em seus lábios está uma oração desesperada.Em seu coração,um sonho abandonado.Em suas mãos,uma corda partida.Mas,diante de seus olhos,se levantava um Galileu que não desiste,e é perito em se envolver em situações quando todos querem fugir.

Por que estes retratos estão na Bíblia? Para que pudéssemos ser agradecidos pelo passado? Para que pudéssemos olhar para trás e ficar maravilhados com aquilo que Jesus fez?
Não.O propósito dessas histórias não é apenas contar aquilo que Jesus fez,mas também o que Ele faz.

Esta é a mensagem do Novo Testamento: Deus fazendo pelo povo aquilo que o povo não pode fazer por si mesmo.Este é o objetivo deste livro: Testemunhar a ternura de Cristo.E também sermos lembrados de que Ele está disposto a fazer hoje o que fez no passado.

Ele ainda remove pedras.

Pequena para quem vê, gigante para quem ama...

Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.


Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:


- E daí? Eu adoro voar!

Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre

(Clarice Lispector)
“Sou gigante e pequena
Depende do desafio...
Sou coragem, sou medo, viagem!
Quero ser de um coração
Ainda quero conhecer de tudo!
Experimentar a música do mar...
Perder, ganhar, escrever!
Perdoar, fortalecer, enfim, SER!
Ser eu mesma, descobrir-me
Nas peças de teatro
Nas pétalas da flor
No peito de um amor
Nas areias de Copacabana
Nas pedras do Sana
Nas asas de um avião!
E sendo isso
Aquilo
Aquilo outro
Serei sempre minha...
Só minha
E de mais ninguém!"


(Autor desconhecido pela blogueira)
Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

(Pablo Neruda)

CALIGO

Sempre tive fascínio por borboletas.Podia passar horas,às vezes tardes inteiras observando-as flutuar como pétalas coloridas içadas pelo vento.Sempre contraditórias – suaves,porém rápidas- quando minhas mãos ligeiras tentavam capturá-las, algo que jamais consegui.Certa vez,uma delas pousou em minha mão.Assim,voluntariamente,como algo que acontece todo dia.Fiquei extasiada! Imediatamente paralisei e evitei até mesmo respirar.Que sensação incrível! De repente, da mesma forma como surgiu, lá se foi ela,deixando-se açoitar pelo vento, indiferente ao encantamento  que me provocara...

Outra ocasião interessante nessa minha relação com as pequenas fadas aconteceu de forma muito inusitada.O primeiro livro que li sobre borboletas foi aos onze anos – depois de passar tempos numa dieta só de estórias infantis de gatos,sapos e princesas –  O caso da borboleta Atíria, da Lúcia Machado de Almeida.Passeava pelos corredores da escola, e lá estava ele, como que me olhando, entre pilhas de livros que estavam ali (ironicamente) para serem jogados fora.Capa velha, porém muito conservado.Nem lembro se prestei atenção no título.Recordo-me apenas da figura de uma borboleta de grandes asas amarelas contornadas de preto.Tentei pedir permissão para levá-lo, que me foi negada.Era mais interessante ao lixo do que a nós, alunos.Mas eu não poderia ficar sem ele.E no auge da minha impetuosidade juvenil recém-adquirida, abracei-o (junto a um Reinações de Narizinho, do Lobato -mas essa já é uma outra história.) e saí correndo, me congratulando pelo furto do bem.Afinal eu havia salvado um livro (na verdade, dois) do fogo!

 


Comecei a lê-lo por ali mesmo, escondida entre as árvores do pátio.E fui lendo no caminho para casa, no quintal de casa, na hora de dormir, insaciável, ávida por leitura.Os insetos passaram a ter um significado mágico para mim.Decorei todos os nomes científicos de espécies de borboletas.E numa noite qualquer de verão lá estava ela,na parede do quarto.

Uma Caligo!

-Mãe! Uma Caligo, vem ver!



No auge do meu desespero, chamo minha mãe como se ela fosse entender alguma coisa.Esbaforida, tropeçando nas palavras explico:



- Observe-a de cabeça para baixo.Nessa posição,ela parece a cabeça de uma coruja, não percebe?Por isso, a Caligo illioneus é chamada de borboleta olho-de-coruja. –Dou, orgulhosa, minha aula de ‘borboletagem’.



Bem, devo dizer que ninguém compartilhou muito da intensidade do meu fascínio.Mas era incrível que, apesar de as borboletas não terem hábitos noturnos(essa possui hábitos matinais e crepusculares) ela estivesse lá, no meu quarto, especialmente durante a leitura do meu maravilhoso livro sobre borboletas.

A menina e o tempo


Nisso de escrever diários e guardá-los como um tesouro...
Nisso de jogar no papel com tinta e lágrimas ou sorrisos tudo que sei e não sei,que sinto e não penso, na esperança de compreender ao contar para mim mesma.

Flores,dores,dilemas e carícias...Beijos,um sem-fim de beijos inundados de ternura e de espera...
Sonhos registrados, figurinhas coladas deliciosamente no canto da página,com a criatividade inerente
às meninas que escrevem diários...
Não sou a autora da história.Sou a protagonista.
A protagonista colorida de mil metamorfoses.
De meandro em meandro,a perda de uma asa, o nascimento de outra.Cores diferentes.
O casulo não é mais o mesmo.Volta e meia retorno para lá.Mas sempre há algo diferente nele.
As janelas apontam para um horizonte que eu não via antes.Ora o observo entre luzes que piscam,ora tudo é escuro e sinto muito medo.Só me resta esperar.
Passa rápido.A treva nunca dura a dor de um dia.Ela se dissolve entre os olhos de uma menina de treze anos.E depois catorze.São dezenove já. Mas, quantos horizontes ainda?Os diários continuam.
E a cada página escrita,uma nova janela.Quando por fim,verei a porta que me libertará?
Não olho no relógio.Espero corajosamente.O medo estará sempre lá,em meio à minha fé de que devo
superá-lo.Ora,já consigo olhar o medo nos olhos e ver quem pisca primeiro.Ele desiste sempre.
E meu horizonte volta a ser calmo.Agora já mais preparada,mais experiente e determinada a vencer sempre
e sempre.

Nisso de buscar em velhos diários a resposta para o que sou agora...
Nisso de abrir flores,dores,dilemas e carícias...
Entre uma página e outra,encontro a menininha.Ou a reencontro.
Recostada suavemente,num canto,ela suspira,adormecida.
Tenho receio de acordá-la.E se ela desejar abrir a porta e saltar para fora, inquieta por este horizonte?
Se ela decidir misturar as cores tão cuidadosamente separadas,página a página? 
Talvez eu não consiga convencê-la a voltar...talvez queira guardá-la comigo,inexoravelmente, para nunca mais tirá-la de mim...
Um raio de dúvida que passa...
Mas o que é isso? Medo?
A menininha ainda está lá,olhos fechados,sonhos ondulando.
Olho para trás.
E viro a página, cuidadosamente.

Anne.

NE ME QUITTE PAS

Tradução da belíssima canção do francês Jacques Brel,composta nos anos 50 e regravada por Maysa anos mais tarde.Vale a pena ouvi-la, atualmente ainda mais bela e tocante na voz de Maria Gadú.


Não me deixe
Devemos esquecer
Tudo pode ser esquecido
Que já tenha passado
Esquecer os tempos
Dos mal-entendidos
E os tempos perdidos
Tentando saber como
Esquecer as horas
Que as vezes mataram
Com sopros de porque
O coração de felicidade


Não me deixe
Eu vou te oferecer
Pérolas de chuva
Que vêm dos países
Onde não chove
Eu vou cavar a terra
Até a minha morte
Para cobrir teu corpo
De ouro e luzes
Eu farei uma terra
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
Onde tu serás rainha


Não me deixe
Não me deixe
Eu inventarei
Palavras sem sentido
Que tu compreenderás
Eu te falarei
Sobre os amantes
Que viram duplamente
Seus corações incendiarem-se
Eu te contarei
A história deste rei
Morto por não poder
Te reencontrar


Não me deixe
Nós freqüentemente vemos
Renascer o fogo
Do vulcão antigo
Que pensamos estar velho demais
Nos é mostrado
Em terras que foram queimadas
Nascendo mais trigo
Do que no melhor abril
E quando vem a noite
Com um céu flamejante
O vermelho e o negro
Não se casam


Não me deixe
Não me deixe
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Eu me esconderei lá
Para te contemplar
A dançar e sorrir
E para te ouvir
Cantar e então rir
Deixe que eu me torne
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixe

O leão e o elefante

Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".

Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".

Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor -eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.

Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".



MORAL DA ESTÓRIA: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE.

Palavras da blogueira: Com tirania, pode-se obter o respeito de alguns,por medo.
De outros, por prudência.
De outros,ainda,por ignorância ou impotência.
Mas nunca, neste ou em outro reino, por amor.

Texto de : Millôr Fernandes in Fábulas Fabulosas

CHAPEUZINHO VERMELHO POLITICAMENTE CORRETA

Adoro este conto desde que fazia o colegial! É uma crítica deliberada à noção que as pessoas têm do politicamente correto.Trata-se de uma paródia do James Finn Garner ao texto original,e faz parte do livro “Contos de fada politicamente corretos”. Dia desses eu o reli no blog Conto a conto,que contém muitas outras obras interessantes.Pena ser difícil encontrar o livro do Garner,já procurei muito.Com certeza é um dos meus favoritos.Inteligente, sarcástico com uma pitada de humor passional (adooooro!)...deliciosamente divertido.



Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho que morava com sua mãe ao lado de uma floresta. Um dia, a mãe de Chapeuzinho lhe pediu para levar uma cesta de frutas frescas e água mineral à casa de sua vovozinha - não porque isso fosse trabalho de mulher, vejam só, mas porque era um ato generoso e que propiciava à filha uma visão comunitária sobre a vida. Tenho a acrescentar que sua vovozinha não estava doente, mas em plena saúde física e mental, sendo totalmente capaz de tomar conta de si mesma como adulta madura que era.
E assim Chapeuzinho Vermelho partiu de sua casa, com sua cesta, floresta adentro. Muita gente acreditava que a floresta era um lugar cheio de presságios e perigos, e nunca punha os pés lá. Chapeuzinho Vermelho, no entanto, em sua sexualidade emergente, tinha confiança em si mesma e nenhuma argumentação freudiana tão óbvia a intimidava.

 
No caminho para casa da vovozinha, Chapeuzinho foi abordada por um lobo, que lhe perguntou o que havia na cesta. Ela respondeu: “Alimentação natural e saudável para minha avó, que é uma adulta amadurecida e, obviamente, capacitada a cuidar de si mesma.”


O lobo respondeu: “Sabe, querida, não é seguro para uma menina andar pela floresta sozinha.”
Chapeuzinho retrucou: “Considero sua observação sexista e extremamente ofensiva, mas vou ignorá-la, por você desempenhar um papel tradicional de pária da sociedade. Agora, se você me desculpa, preciso seguir caminho.” E Chapeuzinho foi andando pela estrada afora.


Como todos os quadrúpedes que habitam as florestas, e que não conseguem se organizar política e socialmente, os lobos são desprovidos do pensamento linear ocidental e, por isso mesmo, têm uma visão imediatista sobre tudo o que os cerca. Sendo assim, o lobo não conseguia pensar em Chapeuzinho Vermelho sem dissociá-la da imagem de algumas batatas e um bom molho ferrugem!


E foi pensando nisto que ele pegou um caminho mais curto para casa da vovó. Mal chegou, foi logo comendo a velhinha. Uma ação inteiramente válida para o carnívoro que era. E, então, desvinculado de noções rígidas e tradicionalistas do que é masculino e feminino, vestiu as roupas da vovó e se meteu na cama.


 
 
Chapeuzinho Vermelho entrou na casinha e disse: “Vovó, trouxe alimentos desnatados e sem sal para lhe homenagear como matriarca sábia e nutridora que é.”

Da cama, o lobo disse suavemente: “Chegue mais perto, filha, para que eu te veja melhor.”
E Chapeuzinho respondeu: "Oh, ia me esquecendo que, como os morcegos, a senhora é oticamente cega. Mas, vovó, que olhos grandes você tem!”
“Eles muito viram e muito perdoaram, minha querida.”
“Vovó, que nariz grande você tem – relativamente, é claro e, certamente bonito, a seu modo.”

E o lobo respondeu com falsa modéstia: “Precisa ver o resto.....”

“Vovó, que dentes grandes você tem!” E o lobo disse: “Estou contente com quem eu sou, e com o que sou!” Dito isso, saltou da cama e agarrou Chapeuzinho Vermelho, pronto para devorá-la. A menina ficou assustada com o lobo vestido daquele jeito, mas evitou fazer qualquer comentário ou dizer qualquer piada preconceituosa e de mau gosto sobre a opção sexual do animal.Mas pôs-se a gritar devido à deliberada invasão de seu espaço pessoal.




Seus gritos foram ouvidos por um lenhador que passava (ou técnico florestal, como ele mesmo preferia ser chamado). Quando entrou na cabana e viu a luta, o lenhador tentou intervir. Mas, quando ergueu o machado, Chapeuzinho e o lobo pararam.


“E o que você pensa que vai fazer?”, perguntou Chapeuzinho.O lenhador piscou e tentou responder, mas as palavras não vieram.

“Invadindo nosso espaço como homem de Neanderthal! Confiando em armas em lugar do seu próprio pensamento!”, exclamou. “Sexista! Especieísta! Falocentrista! Açougueiro de árvores! Como ousa supor que mulheres e lobos não podem resolver seus problemas sem a ajuda de um homem?”

Ao ouvir o discurso passional de Chapeuzinho Vermelho, a vovó pulou de dentro da boca do lobo, pegou o machado do lenhador e cortou-lhe a cabeça.


Superado esse contratempo, Chapeuzinho Vermelho, vovó e o lobo sentiram uma comunhão de propósitos. Decidiram então estabelecer uma comunidade alternativa, baseada no respeito mútuo e na cooperação, e viveram juntos na floresta, felizes para sempre.

Mania de explicação

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.


"Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra."

As pessoas até se irritavam - irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.

"Solidão é uma ilha com saudade de barco."
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue."
"Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo."
"Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer 'eu deixo' é pouco. "
"Pouco é menos da metade."
"Muito é quando os dedos da mão não são suficientes."
"Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça."
"Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego."
"Agonia é quando o maestro de você se perde completamente."
"Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento."
"Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa."
"Certeza é quando a ideia cansa de procurar e pára."
"Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido."
"Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista."
"Renúncia é um não que não queria ser ele."
"Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe."
"Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente."
"Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora."
"Orgulho é uma guarita entre você e o da frente."
"Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja."
"Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente."
"Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento."
"Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado."
"Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes."
"Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração."
"Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro."
"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."
"Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros."
"Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho."
"Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia."
"Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia."
"Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo."
"Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo."
"Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa."
"Desatino é um desataque de prudência."
"Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo."
"Lucidez é um acesso de loucura ao contrário."
"Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato."
"Emoção é um tango que ainda não foi feito."
"Ainda é quando a vontade está no meio do caminho."
"Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele."
"Desejo é uma boca com sede."
"Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra."
"Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado."

Não. Amor é um exagero... Também não. É um desaforo... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.